Posições regressivas

As "posições regressivas" são aquelas em que, por exemplo, a mãe proíbe a criança de comer alguma coisa. “Eu proibí você de comer de comer isso”. “Mas por que?”. “Porque eu mandei”. Vê-se isso o tempo todo. E ela castiga o filho porque ele comeu o bombom que ela não queria; por coisas completamente idiotas nas quais ela põe seu interesse. Ao passo que, se a criança desobedecer e de fato ficar doente, ela pode dizer: “Pois você está vendo meu amor? Foi por isso que eu proibí você de comer todo aquele bombom, porque você pode ter essa dor de barriga. Agora você ja sabe!”. 

O mesmo acontece se a criança morde outra criança e o educador/os pais a mordem, ou fazem outra criança mordê-la para mostrar como é ser mordido. O que se ensina é a lei da selva, é que há alguém que morde melhor ainda. Portanto: “Quanto mais eu crescer, mais forte ficarei para morder o meu vizinho”. Ou o educador/os pais que batem na criança porque esta bateu neles ou em outra criança. Esse adulto demonstra pulsões temporariamente recalcadas, prontas para sair. Essa criança, de repente, desencadeou no adulto a vontade que ele havia recalcado e não dominara totalmente, em nome de seu interesse pelo ser humano. Esse adulto não superou sua violência. Recalcou-a, e aproveita-se de seu poder sobre uma criança mais fraca, violentando-a com a alegação de que a criança foi a primeira a demonstrar violência.

A educação deveria ser um arraigar-se numa filiação simbólica dada pelo exemplo de adultos que dominam suas pulsões sem agredir, humilhar ou usar de sua força física sobre a criança que tem pulsões (morder e bater) ainda não dominadas. É muito importante! Os educadores devem dar a castração pela palavra, dizendo: “Não, não é possível fazer assim!”, demonstrando eles mesmos, por suas ações, que sentem prazer em viver de outra maneira. 

A priori, toda riança acha que ser adulto é: quanto mais se é forte, mais se destrói, mais se despreza o outro, mais significa que se é grande e forte. Isso, em vista de sua pequena massa corpórea em relação à do adulto. O que o adulto deve significar é que ser adulto não é ter sempre razão nem ser o mais forte, é ser mestre de suas pulsões. E se ele nem sempre consegue isso, mostrar então que nisso ele não é modelo, e que a criança não deve imitá-lo em seus defeitos, que ela percebe e tem o direito de criticar.

Leia mais em A SOLIDÃO de Françoise Dolto.

Os sinais do fim de uma psicoterapia infantil

Quando termina o tratamento?

"[...] Em outras palavras: ele tem projetos, aceitou seu passado e vive seu presente, tudo ao mesmo tempo. É, efetivamente, o momento em que se pode dizer que uma psicoterapia deve terminar, para uma criança que superou, tranquilamente, seu Édipo.

Não sei como cada um de vocês faz em sua prática, mas parece-me que se deve terminar o tratamento de uma criança quando ela está próxima da puberdade (entre 10 e 11 anos), época em que problemas diferentes vão se colocar.

Suas próprias dificuldades, a criança as assume. O problema é que os pais possam também aceitá-las e admitir que a criança se responsabilize por si mesma. Ficam frequentemente angustiados quando o tratamento do filho termina. É por esse motivo que devemos fazê-los tomar consciência de que descansaram no psicanalista e que negligenciaram em certa medida seu papel de apoio, por assim dizer, na educação do filho.

Penso, realmente, que o Édipo da criança deve se fazer em cima dos pais; nós, psicanalistas, só podemos ajudar a criança a atravessar o Édipo; mas é algo tão importante em sua vida que não devemos tomar o lugar do pai/mãe que proíbe que a vida imagináriaa ou fantasística da criança, ou até mesmo seus pesadelos,invadam a vida da casa e aporrinhem toda a família.

Cabe ao pai chamar a si a autoridade, não ao psicanalista. Quando uma criança esteve fisicamente doente, ficando frágil ou até mesmo com atraso (escolar), os pais sentem muito medo. Ora, é precisamente o Édipo que faz mudar a situação pra a criança e para os próprios pais. Pois a criança superará o atraso se ajudarmos os pais a aceitar o desmame. Desmame de quê? Do hábito de levar o filho a um terapeuta. O que trazem de fato? Trazem uma criança em estado de transferência. Expliquem-lhes essa transferência: "Sejam para seu filho bm mais importantes que eu (o médico ou o psicanalista)", é isso que devemos fazê-lo entender. Que o pai e a mãe reassumam seu papel.

[...] Devemos desconfiar, com relação às crianças, das transferências de sedução que nos incitariam a tomar o lugar fantasístico dos pais.

Quantos pais não vemos, por ocasião dessas reuniões de síntese, nos dizer que o filho não para de bradar, sempre que acontece algo desagradável para ele em casa: "vou contar para meu psicanalista!".

Leia mais em SEMINÁRIO DE PSICANÁLISE DE CRIANÇAS de Françoise Dolto.

Quando se oferecem palavras às situações de impasse ...

Na maison Verte se pratica diariamente o falar com a criança sobre aquilo que lhes interessa, tanto no que seus pais dizem, como naquilo que a criança faz e que lhe causa insatisfação em seu sucesso ou uma dificuldade em relação com uma outra pessoa. É a entrada na convivialidade, sem dependência do grupo.

Quando se oferecem palavras às situações de impasse, na maison verte, o que lá se faz é “colocar concretamente os fatos como eles são, ao invés de deixar o imaginário fazer espuma, espuma vazia mas que pouco a pouco se transforma em angústia”. Essa fala se estende até mesmo aos bebês. Não importa a língua com a qual se fala com eles, pois o que entendem é a intenção de comunicação: “Diríamos que a criança intui a comunicação que lhe fazem. Ela é reconhecida como um ser humano na linguagem, pois o ser humano, já na infância, está na linguagem, completamente.

Outro aspecto fundamental na Maison Verte é a presença da lei. São leis relativas à normatização do brincar das crianças. Tais normas, em sua aparente banalidade, inauguram o campo de introjeção de leis que regem a vida coletiva. Dentro deste espírito formularam as seguintes leis: a primeira determina, através de uma linha pintada no chão, o espaço limite dos brinquedos com rodas, do tipo velocípede. Cria-se então um espaço protegido para os pequeninos que ainda não têm maturidade para usá-los e poderiam se machucar. A conversa sobre a transgressão sempre se faz presente. A outra lei diz que só é permitido brincar com água usando avental, protegendo assim as roupas cotidianas do frio e da umidade. Essa última lei propicia a comparação entre a ordem doméstica – em cada casa se faz de um jeito – e as leis das instituições coletivas.

A Maison Verte prepara a criança para ser, com dois meses, separada de sua mãe, sem ser o teatro dessa famosa “síndrome de adaptaçãp”, para viver com toda segurança sem ela na sociedade. Muitas mães que para ai se dirigem sabem que com dois meses elas serão obrigadas a pôr sua criança na creche, porque elas deverão retomar seu trabalho e não podem viver sem ele. Esses bebês, ao cabo de cinco a seis vezes (é o suficiente), ficam preparados para viver com adultos em quem a mãe deposita confiança e com crianças de sua idade, cujas mamães têm o mesmo problema de se separar de seu filho durante o dia inteiro. Não é humano, para uma mulher, separar-se, com dois meses, de seu bebê. Ela é tomada entre sua necessidade de ganhar dinheiro e sua impossibilidade de continuar junto de seu filho.

Os bebês que começaram pela Maison Verte são diferentes. Eles não tem síndrome de adaptação. Pois, na presença das mães, nós anunciamos aos bebês o que os espera: “Quando sua mamãe trouxer você de manhã, ela irá para o trabalho. Quando você estava no ventre dela você ia ao trabalho com ela, agora você nasceu, e voc6e não pode ir ao trabalho com os adultos, porque você deve ficar com as crianças de sua idade. Outras senhoras cuidarão de você!”. O bebê entende tudo que lhe dizemos. Ele compreende qualquer linguagem. Ele compreende que falamos para sua pessoa sobre a dificuldade que o espera; ele se tranquiliza ao nos ouvir dizer que essa dificuldade é um sinal de que ele ama sua mamãe, e que ele é amado por ela.


O que nos parece ser o mais importante em toda a proposta da Maison Verte de Françoise Dolto é que, muito além de qualquer teoria ou técnica, ela propõe uma ética no lidar com crianças. Professor, família, analista, médico, todos enfim, devem reconhecer na criança um sujeito desejante e um cidadão merecedor da verdade sobre suas origens, seus sentimentos, sua história.

Leia mais em A CAUSA DAS CRIANÇAS de Françoise Dolto

Psicoterapeuta x Educador

“[...] É algo muito feliz a preocupação de criar “lugares de educação”. Mas é um erro confiar à mesma pessoa o trabalho psicológico da análise da criança e a função de educador da criança. Uma confusão dos papéis foi introduzida e é absolutamente lastimável, pois os encaminhamentos são inversos.

De um lado, o psicanalista põe-se à escuta, ajudando a criança a expressar o não dito dos primeiros anos de vida e, portanto, voltando com ela para seu passado, até a fase fetal. O fundamento de nosso interesse preferencial pelos seres humanos ainda no estado de infância é que, nesse estágio de seu desenvolvimento, podemos nos comunicar com todas as suas potencialidades e é possível mobilizá-las. Na idade do analista, tudo já está disposto. Ou quase tudo. Na idade de seu “paciente”, porém, há algo de novo, de único, de incomparável que deve ser ajudado a viver, a despertar, a apoiar […] E estar à escuta das crianças não é observá-las como um objeto de pesquisa, nem procurar educá-las, mas respeitar, amar nelas essa geração nova que elas trazem. Sabemos sempre até que ponto estamos à escuta sem fingir, sem interferir, sem perturbar as ondas? Não temos nada a impor às crianças.


Do outro lado, solicitamos a criança a se projetar para frente, para preparar o futuro. O psicanalista não tem nenhum desígnio prático e não exerce nenhuma pressão educativa. Não julga nem aconselha. O educador, ao contrário, é agente da inserção em tal tipo de sociedade, e deve guiar a criança. Como educador, trata-se de intervir em relação a atos reais na sociedade, referindo-se ao código de valores dessa sociedade, ao código desse grupo a que a criança pertence (ex.: combinados da turminha), e, não porque é certo ou errado. Pois a criança vai dizer: “É certo”ou “É errado”, mas o educador deve estimulá-la a refletir sobre o porquê, para compreender a razão do código de valores, em vez de obrigá-la a admitir valores prontos: “Por que você diz que está errado? …. Porque se todos os do grupo fizessem o que você acaba de fazer, seria perigoso para todo mundo”. Acostuma-se, assim, a criança a contar com os outros. É esse o papel do educador. A escola está a serviço das crianças, e não as crianças a serviço da escola. Cada professor ou educador, cada psicoterapeuta ou médico está a serviço dessa criança, desse cidadão, não é o cidadão que está a serviço deles. Estudemos primeiro isso conosco mesmos. Assim permaneceremos, por um lado, vivos e, por outro, dentro dos limites de nosso poder real: o poder pelo qual, pagos ou não, existimos em sociedade, a fim de nos ajudarmos mutuamente e nos sairmos bem, se for possível, a suportar as dificuldades da vida e a desfrutar de suas alegrias, porque é por causa delas que nos lançamos nessa aventura no dia de nossa concepção […]” 

Adaptação de trechos retirados das obras A CAUSA DAS CRIANÇAS e DESTINOS DE CRIANÇAS de Françoise Dolto.

Pontos importante da obra de Françoise Dolto

Pontos importante da obra de Françoise Dolto:

  1. O ser humano é um ser de “filiação linguajeira”, um ser de linguagem, pertencente a uma linguagem. Inscreve-se num mundo transgeracional. O ser humano busca desde a vida fetal, a comunicação. A relação inter-humana humaniza. Dirigir-se ao bebê com palavras que traduzam suas emoções, seu sofrimento e sua história faz com que ele entre no código humano da linguagem. O “falar verdadeiramente”, isto é, a entrada em ressonância com a criança , através da comunicaçãp no nível em que ela se encontra, produz efeitos liberadores e estruturantes. Assim, Françoise Dolto pregava que se dissesse à criança a verdade concernente a ela, inclusive a mais difícil, pois a mentira está em desequilíbrio com o pressentido e o inconsciente do sujeito.
  2. O ser humano é uma fonte autônoma de desejo desde a concepção. Françoise Dolto afirmava que o nascimento simboliza o desejo de assumir a si mesmo, a encarnação no corpo de um sujeito desejante. A necessária articulação dos sexos para gerar a vida deve ser dita à criança. Uma mulher só se torna mãe através de um pai. Saber que a mãe concebeu o filho num ato de desejo com um homem situa a criança em sa verdade e a livra de uma hemiplegia afetiva simbólica. A vinda ao mundo é a encarnação de três desejos: o da mãe, o do pai e o do próprio sujeito. Françoise Dolto chegava até a afirmar que a criança escolhe seus pais.
  3. Françoise Dolto destacou com frequência os vínculos entre a neurose dos pais e a dos filhos. Estes são portadores de dívidas transgeracionais não saldadas. Às vezes, o sofrimento não verbalizado de duas linhagens tira o dinamismo de um descendente. Mas as crianças também herdam qualidades dinâmicas dos pais. Assim, na estrutura do sujeito, há três gerações em jogo. Nem por isso, no entanto, Françoise Dolto reduzia o sujeito à simples expressão da fantasia parental. Nas entrevistas preliminares, ela analisava as relações dinâmicas inconscientes entre os pais e a criança, remontando às estruturações edipianas dos pais e dos avós.
  4. Se os defeitos e rompimentos do vínculo pós-natal podem ter repercussões graves na vitalidade do bebê, Françoise Dolto afirmava, por outro lado, que os sofrimentos e infortúnios não são traumatizantes, quando conseguem se exprimir. Ela assinalava que o ser humano tem uma capacidade extraordinária de sublimar a privação de quase tudo, desde que essa privação seja mediatizada sem mudar a realidade, e desde que ele esteja em relação com alguém e possa dizer de sua experiência, sem precisar imitá-la com o corpo. Por isso, ela se afastou de uma visão realista da carência como explicação das dificuldades psicopatológicas, em prol de uma busca dos significantes alienantes e de dinâmicas libidinais pervertidas.
Leia mais em "Introdução às obras de Freud, Ferenczi, Groddeck, Klein, Winnicott, Dolto, Lacan"De J. D. Nasio

Sobre a mãe que não sabe ser mãe porque não teve uma

"(...) são mães que adoram o filho imaginário, mas que não suportam o filho real mais de uma hora sem o maltratar. Elas falam do filho com saudades, suplicam para estarem juntos quando separados por muito tempo. Depois, basta passarem uma tarde juntos para se perceber que os dois (mãe e filho) não podem se suportar: a criança chora e a mãe berra. A mãe luta por um filho imaginário, ela pensa em seu filho como sendo um boneco, que joga no armário ao voltar para casa! Ela recusa a criança, se esta tem uma ideia propria. Ela não sabe estar em relação com o filho.

(...) a criança ama a mãe, é preciso que continue a ama-la, mas sem toma-la como exemplo. Isso é o mais difícil. Se a criança se põe a falar a linguagem da perversão, da depressão e da intoxicação (da mãe), ela não vai poder se construir. A criança se torna masoquista. Não quer se separar da mãe.

(...) o educador ou psicanalista deve ajudar essa mãe para que esta consiga saber cuidar do filho real, permitindo assim a essa mãe descobrir o quanto essa criança é interessante, pois para a mãe não passa de fonte de esgotamento.

(...) O psicanalista/educador também pode ajudar a criança. No caso da criança pequena,se deve separar da mãe. E deve-se desculpar a mãe: "Sabe, sua mamãe não pode cuidar de você, mas você a verá todos os sábados e domingos. Você vai ser criado em outra família". E, a partir dos oito anos, a criança já sabe fugir quando as coisas ficam feias, e depois volta para a casa. E a criança de oito anos já é um ser humano total, se foi criada para ser um sujeito a quem se pode dizer: "está vendo, sua mãe não sabe cuidar de crianças. Você pode tentar ficar com sua mamãe e ajuda-la em casa. E se não der certo, você pode sair de casa(passar um tempo na casa dos avós, de amigos etc). Sempre haverá possibilidade de abrigar você em algum lugar!" Seria formidável poder fazer isso, isto é, dar à criança uma autonomia e responsabilizá-la, sem deixar de amar a mãe que é carente, e, a criança vendo que a mãe não pode ser mãe, porque ela mesma não teve mãe para cuidar dela (...)".

Leia mais na obra "Destinos de crianças" de Françoise Dolto, páginas 148-151.

Filtro contra xingamentos

Uma criança que recebe uma repreensão verbal e não reage não está bem consigo mesma. Para estar bem consigo mesma, ela precisa, tendo sido repreendida, responder com besteiras, que o adulto não deve ouvir. De vez em quando, um aluno era repreendido por ter feito algo perigoso, arriscado. Assim que o professor se afastava, a criança respondia dizendo uma besteira, e assim tudo entrava nos eixos. A criança teve seu castigo, e, ao mesmo tempo, seus limites. Ela o aceitava muito bem, contanto que replicasse alguma coisa. Mas, se, infelizmente, a pessoa a ouvia e se zangava, a criança ficava deprimida o dia inteiro, porque tinha sido impedida de ir até o fim da besteira que queria dizer. Eu ainda não tinha filhos na época, [quando presenciei esse processo], mas gravei essa lição formidável; e quando, mais tarde, meus filhos resmungavam depois de terem sido repreendidos, eu achava melhor nada manifestar nesse momento. Quando eles vociferavam alto demais e eu não podia deixar de ouvir, eu lhes dizia: “Sabe, depois de ter dado a bronca em você, eu pus uns filtros no ouvido”. Eles riam com isso e se espantavam: “Como assim? Você põe filtros e se eu te xingar, você não ouve?”. E eu respondia: “Claaaaarooo!!!! Porque eu botei meus filtros contra palavrões!”. Essa maneira de levar as coisas com humor ajuda muito a criança. Ela pode, assim, obedecer salvaguardando ao mesmo tempo o seu narcisismo.
Leia mais em “Destinos de crianças" de Françoise Dolto.

Se uma criança transgride uma proibição ...

Se uma criança transgride uma proibição que lhe foi feita, ela tem efetivamente de experimentar o sofrimento decorrente de seu ato. Se não sofrer, não terá mais confiança em nós, proque isso provará que a proibição não tinha sentido ou era abusiva. Se, ao contrário, a criança sente realmente o perigo que corre ao transgredir essa proibição, porque ainda não tem o controle necessário para conquistar o que cobiça, compreende que o educador é seu auxiliar. 

Leia mais em “Destinos de crianças” de Françoise Dolto

Fracasso escolar

Quando a criança está indo mal na escola, esse é um sintoma que se deve levar em consideração e apreciar conforme muitos critérios , mas não censurar a criança por esse fato. Isso indica que outra coisa não vai bem. Por que desanimar a criança e os pais, prevendo o mais sombrio futuro? Fazer a criança perder a confiança em si é retirar-lhe as suas possibilidades. Isso nunca estimula. O fracasso escolar é uma prova trágica para muitas crianças. O caráter e a sociabilidade, a inteligência do corpo, das mãos, o espírito de iniciativa e de colaboração são indispensáveis para a vida. Estar interessado pelo que se diz e faz na classe (e no recreio) é mais importante do que as notas que se obtém. Intervêm muitos fatores afetivos que provêm a um só tempo do passado e do presente da vida da criança, assim como do ambiente da classe. 
Leia mais em “Etapas decisivas da infância" de Françoise Dolto.

O espaço das crianças

De acordo com o que eu entendi da linha montessoriana, e das ideias da Françoise Dolto, existe um princípio básico que norteia a educação da criança, e por conseguinte toda a organização do ambiente – seja este ambiente o quarto da criança em casa, seja a sala de aula na escola – que é: dar independência e autonomia para a criança. Uma forma de pensar esta independência/autonomia é sentar no chão ou ficar de joelhos, para ter uma perspectiva do ambiente do ponto de vista da criança. Desta forma, você terá uma ideia de como melhor organizar o espaço (seja o quarto/sala/cozinha/banheiro, seja a sala de aula), dando acesso fácil para a criança ao que é dela. Algumas ideias:

• No caso do quarto, o ideal é a cama da criança ser baixa, tornando mais fácil para a criança o acesso a sua própria cama, com segurança e independência. Optamos pelo colchão no chão, um estilo minimalista, e as crianças amaram, os colchões viram cabanas, viram pula-pula, viram sofá, viram cama, e muitas outras coisas. Antes, tínhamos uma tricama de madeira da Finland e as crianças se machucavam muito, batendo a cabeça, caindo. No caso da sala de aula, é prudente evitar o excesso de mobílias, e dispor os móveis de forma que a criança tenha espaço para circular pela sala, além disso, explorar: estantes baixas; recipientes transparentes para os brinquedos; caixas com divisórias para os materiais (do tipo: grãos de feijão/arroz; sementes etc).




• os brinquedos devem ser organizados de forma que a criança possa alcançá-los, então, colocar em prateleiras (no nosso caso, o acesso é subindo pela cama ou por um banco); em gavetas (baixas); em sacos/caixas transparentes e nomeados. O ideal é estarem separados por categorias, como: cozinha (panelas, pratos, talheres, canecas etc); montagem (blocos e outros de encaixe); fantoches; instrumentos musicais; bonequinhos; carros; dominós; quebra-cabeça. E em recipientes transparentes (caixas ou sacolas). Além disso, é imprescindível desentulhar o quarto; neste sentido, ajuda muito limitar a quantidade de brinquedos. Por exemplo, nós combinamos com as crianças que o limite de bonecos que eles podem ter é o tanto que couber nas prateleiras; o tanto de bonequinhos que couber na sacola; e assim por diante. Logo, se chegam brinquedos novos (louças, blocos, louças, fantoches etc), eles fazem uma seleção dentre os velhos para ver os que partirão para doação, inclusive roupas! Só no caso dos livros, é que fazemos uma seleção semanal (leitura antes de dormir) para as prateleiras do quarto e o resto fica guardado no armário (bibliotequinha) da sala, também ao alcance deles.



• com o intuito de facilitar o acesso das crianças aos brinquedos e suas roupinhas, retiramos as portas dos armários, e enfeitamos os interiores com contact estampado. Mudas de roupas (por exemplo: conjunto de saia e blusa), já ficam prontas nas gavetas, ao alcance das crianças, e elas podem escolher qual conjuntinho vestirão.

• as paredes podem ser decoradas com quadros/estampas de arte de alta qualidade, relógio, espelho; preferencialmente, pendurados no plano visual da criança. Colocamos alguns quadros ao alcance das crianças quando em pé sob a pilha de colchões; o espelho na altura delas quando sentadas brincando, e o relógio também. Penduramos ainda três quadros na parede (de cortiça, negro, e branco), na altura das crianças, onde eles podem pendurar desenhos, figuras, obra de arte, assim como, podem retirar, apoiando no chão, para desenhar, experimentando diferentes texturas.


É claro que, por trás disso, é preciso também todo um trabalho educacional/civilizador, e, Françoise Dolto tem excelentes orientações a respeito.

Nós adotamos esta filosofia minimalista de vida faz um tempo. Não foi só o quarto das crianças onde aplicamos o minimalismo, a casa toda tem o mínimo indispensável de móveis, e nossos pertences também são poucos. Eu acho que isto, obviamente, faz parte da educação, ser o exemplo para nossas crianças. Nós nos educamos quando educamos os nossos filhos.