O espaço das crianças

De acordo com o que eu entendi da linha montessoriana, e das ideias da Françoise Dolto, existe um princípio básico que norteia a educação da criança, e por conseguinte toda a organização do ambiente – seja este ambiente o quarto da criança em casa, seja a sala de aula na escola – que é: dar independência e autonomia para a criança. Uma forma de pensar esta independência/autonomia é sentar no chão ou ficar de joelhos, para ter uma perspectiva do ambiente do ponto de vista da criança. Desta forma, você terá uma ideia de como melhor organizar o espaço (seja o quarto/sala/cozinha/banheiro, seja a sala de aula), dando acesso fácil para a criança ao que é dela. Algumas ideias:

• No caso do quarto, o ideal é a cama da criança ser baixa, tornando mais fácil para a criança o acesso a sua própria cama, com segurança e independência. Optamos pelo colchão no chão, um estilo minimalista, e as crianças amaram, os colchões viram cabanas, viram pula-pula, viram sofá, viram cama, e muitas outras coisas. Antes, tínhamos uma tricama de madeira da Finland e as crianças se machucavam muito, batendo a cabeça, caindo. No caso da sala de aula, é prudente evitar o excesso de mobílias, e dispor os móveis de forma que a criança tenha espaço para circular pela sala, além disso, explorar: estantes baixas; recipientes transparentes para os brinquedos; caixas com divisórias para os materiais (do tipo: grãos de feijão/arroz; sementes etc).




• os brinquedos devem ser organizados de forma que a criança possa alcançá-los, então, colocar em prateleiras (no nosso caso, o acesso é subindo pela cama ou por um banco); em gavetas (baixas); em sacos/caixas transparentes e nomeados. O ideal é estarem separados por categorias, como: cozinha (panelas, pratos, talheres, canecas etc); montagem (blocos e outros de encaixe); fantoches; instrumentos musicais; bonequinhos; carros; dominós; quebra-cabeça. E em recipientes transparentes (caixas ou sacolas). Além disso, é imprescindível desentulhar o quarto; neste sentido, ajuda muito limitar a quantidade de brinquedos. Por exemplo, nós combinamos com as crianças que o limite de bonecos que eles podem ter é o tanto que couber nas prateleiras; o tanto de bonequinhos que couber na sacola; e assim por diante. Logo, se chegam brinquedos novos (louças, blocos, louças, fantoches etc), eles fazem uma seleção dentre os velhos para ver os que partirão para doação, inclusive roupas! Só no caso dos livros, é que fazemos uma seleção semanal (leitura antes de dormir) para as prateleiras do quarto e o resto fica guardado no armário (bibliotequinha) da sala, também ao alcance deles.



• com o intuito de facilitar o acesso das crianças aos brinquedos e suas roupinhas, retiramos as portas dos armários, e enfeitamos os interiores com contact estampado. Mudas de roupas (por exemplo: conjunto de saia e blusa), já ficam prontas nas gavetas, ao alcance das crianças, e elas podem escolher qual conjuntinho vestirão.

• as paredes podem ser decoradas com quadros/estampas de arte de alta qualidade, relógio, espelho; preferencialmente, pendurados no plano visual da criança. Colocamos alguns quadros ao alcance das crianças quando em pé sob a pilha de colchões; o espelho na altura delas quando sentadas brincando, e o relógio também. Penduramos ainda três quadros na parede (de cortiça, negro, e branco), na altura das crianças, onde eles podem pendurar desenhos, figuras, obra de arte, assim como, podem retirar, apoiando no chão, para desenhar, experimentando diferentes texturas.


É claro que, por trás disso, é preciso também todo um trabalho educacional/civilizador, e, Françoise Dolto tem excelentes orientações a respeito.

Nós adotamos esta filosofia minimalista de vida faz um tempo. Não foi só o quarto das crianças onde aplicamos o minimalismo, a casa toda tem o mínimo indispensável de móveis, e nossos pertences também são poucos. Eu acho que isto, obviamente, faz parte da educação, ser o exemplo para nossas crianças. Nós nos educamos quando educamos os nossos filhos.

Contos de fada


Se você quer que suas crianças sejam inteligentes
leia para eles contos de fada
Se você quer que eles sejam muito inteligentes
leia muitos contos de fadas para eles.
Albert Einstein

O dia-a-dia das crianças

Depois de preencher uma ficha "julgue seu próximo" do Trabalho da Byron Katie sobre o meu problema com os atrasos, e, uma boa orientação da Françoise Dolto, finalmente, sentei com meus filhos e montamos o quadro com as nossas atividades da semana. E assim eu confirmei mais uma vez a importância de se comunicar com a criança, já desde de pequena, em casa e na escola. Eu tenho um de dois anos e uma de três, e,sinto que tudo fica mais fácil se eles entendem o que vai acontecer e o que estamos pedindo deles!

Escolhi as figuras com as crianças, e para ajudar a lembrar das atividades, eu colocava um alarme no celular, eles escolheram o canto do galo, brincavamos "quando o galo canta eh porque esta na hora de ...". e deu super certo ;-)



(coloquei em pdf as imagens que usamos)
Depois de um mes, eles entraram no ritmo e o quadro ja nao foi mais necessario, nem o galo precisava cantar mais!!!!

Conversamos sobre a rotina deles na escola também, e estes quadros da turma da Mônica nos ajudaram:











Recomendo estas leituras:
O importante ritual do sono da Rosely Sayão
Educação infantil: parâmetros em ação
Family routine

Ah! Lembro que o reward chart da supernanny também ajudou a estabelecer uma rotina ;-)

Atrasados, de novo!!!!!!

A Byron Katie aborda formas de identificar e questionar pensamentos que trazem sofrimento, atrito, raiva, dor. O site em português http://www.thework.com/portugues/ oferece uma ficha intitulada "julgue seu próximo" e mais de um guia com orientações para o preenchimento dessa ficha, tudo gratuito, e, oferecendo tudo o que você precisa para realizar o trabalho sozinho. É interessante também ler ou assistir aos diálogos da B. Katie, pois trazem clareza para os problemas humanos mais complicados, são exemplos de como pessoas comuns podem encontrar sua própria liberdade por meio da investigação. Quanto mais fichas você preencher, quanto mais você se aprofundar neste Trabalho da B.K., mais vai compreender o poder do processo.

Coloquei abaixo uma das milhares de fichas que eu fiz, como exemplo. Lembro que a recomendação de B.K, ao preencher a ficha, é permitir a si mesmo criticar à vontade e ser tão mesquinha quanto realmente se sente, não tentar ser "espiritual" ou "generoso". E é preciso meditar sobre as questões, respirar fundo, às vezes, alguns exemplos, no momento da inversão, vêm muito depois.

Situação-problema: Meus filhos demoram para se arrumar para a escola (comer, vestir-se, escolher os brinquedos para a roda de novidades etc) e nos atrasamos muito na hora de saír de casa.
  • Eu estou irritada com os meus filhos porque eles me atrasam na saída para a escola.
    • Isso é verdade? Sim!
    • Reação: irritação, digo coisas que eu me arrependo depois, eu brigo.
    • Como seria se eu não tivesse esse pensamento de que os meus filhos não podem atrasar? Não sei!
    • Inversões:
      • Eu me atraso na saída para a escola. Exemplos: 1) eu demorei para me vestir também; 2) eu também demorei e/ou esqueci de pegar as minhas coisas (chave do carro, casaco etc); 3) eu demorei para botar o almoço na mesa.
  • Eu quero que os meus filhos vejam como eles me irritam.
    • Isso é verdade? Sim!
    • Reação: brigas.
    • Como seria se eu não tivesse esse pensamento? Não sei.
    • Inversões:
      • Eu quero que eu veja como eu me faço irritada. Exemplos: 1) eu me faço irritada ao esperar que eles solucionem o atraso; 2) eu me faço irritada ao brigar com a realidade, e acreditar que não deveríamos nos atrasar quando estamos super atrasados; 3) eu me faço irritada ao acreditar que sou uma vítima na situação, impotente, quando, na realidade, eu sou a responsável.
      • Eu quero que eu veja como eu irrito os meus filhos. Exemplos: 1) eu irrito e assusto os meus filhos quando eu começo a resmungar/brigar; 2) eu irrito os meus filhos quando eu não deixo eles levarem o brinquedo que eles queriam levar para a escola porque estamos atrasados e eu não quero perder tempo procurando o brinquedo; 3) eu irrito os meus filhos quando eu não paro de cobrar como eles deveriam estar fazendo; 4) eu irrito os meus filhos quando eu apresso eles.
      • Eu não quero que os meus filhos vejam como eles me irritam. Exemplos: 1) eu não quero porque eles verão o que eles quiserem ver, eu não quero controlar o que os meus filhos verão, e, eu só posso controlar o que eu vejo; 2) eu não quero porque eu não quero dar este poder para os meus filhos, o poder de me irritar, eu quero acreditar que eu escolho me fazer irritada; 3) eu não quero porque a realidade é que o atraso dos meus filhos não é a causa da minha irritação; eles não têm nada com isso.
  • Eu preciso que os meus filhos sejam mais objetivos/organizados. 
    • Isso é verdade? Sim!
    • Reação: profunda irritação.
    • Como seria se eu não tivesse esse pensamento? Não sei.
    • Inversões:
      • Eu preciso que eu seja mais objetiva/organizada. Exemplos: 1) organizando-me com um checklist para não esquecer de nada, sendo um exemplo para os meus filhos; 2) colocando alarmes no meu celular para me lembrar: da hora de esquentar a comida; da hora de preparar a minha bolsa; da hora de preparar a bolsa de brinquedos dos meus filhos e com os meus filhos; e, assim, criarmos juntos a disciplina de nos organizarmos com antecedência; 3) elaborando um quadro da nossa rotina para ajudar as crianças a entenderem o que fazemos no nosso dia-a-dia, e, assim, suavizar a transição de uma tarefa para outra.
      • Eu não preciso que os meus filhos sejam mais objetivos/organizados. Exemplos: 1) eu não preciso porque eles são crianças, ainda não tem noção do tempo, muito menos disciplina desenvolvida para se organizar com antecedência; eu também não lembrava na idade deles; 2) eu não preciso porque eu sou a adulta, a responsável, o exemplo; 3) eu não preciso porque eu quero aprender a ser organizada; 4) eu não preciso porque eu não quero depender de ninguém para eu me organizar.
  • Os meus filhos deveriam colaborar para sairmos na hora.
    • Isso é verdade? Sim!
    • Reação: impotência.
    • Como seria se eu não tivesse esse pensamento? Não sei.
    • Inversões:  Eu deveria colaborar para sairmos na hora. Exemplos: 1) sim, eu deveria colaborar ... me antecipando, me ajudando, ajudando os meus filhos; 2) eu deveria colaborar convidando os meus filhos a participarem de nossa organização; 3) eu deveria colaborar não brigando; 4) eu deveria colaborar convidando os meus filhos para aprendermos juntos a como nos organizarmos. 
  • Os meus filhos foram difíceis = Eu fui difícil. Exemplos: 1) eu fui difícil ao brigar com eles; 2) eu fui difícil ao não me organizar; eu fui difícil ao não ajudá-los.
Eu já fiz o trabalho da Byron Katie sobre diversas das minhas dificuldades com os meus filhos. E muita coisa já melhorou em nossa relação graças a essas fichas. Depois dessa ficha acima, em particular, que eu fiz já faz tempo, eu coloquei em prática muitas das ideias que eu tive, e, os resultados foram maravilhosos. Hoje em dia, por exemplo, nós preparamos a mochila juntos, e acabou se tornando um momento gostoso, em que eu fico sabendo mais dos meus filhos: do que eles gostam de brincar na escola, sobre a interação deles com os coleguinhas ... muito legal!

O Trabalho da Byron Katie

Recomendo a leitura do livro "Ame a realidade" da Byron Katie. O trabalho dela aborda formas de identificar e questionar pensamentos que trazem sofrimento, atrito, raiva, dor. O site em português http://www.thework.com/portugues/ oferece uma ficha intitulada "julgue seu próximo" e mais de um guia com orientações para o preenchimento dessa ficha, tudo gratuito. Eu li o livro e comecei a preencher essa ficha toda vez que sentia um emoção negativa, principalmente em relação aos meus filhos, mas com os meus alunos também. Por isso recomendo muito para pais e professores. Postarei algumas das milhares de fichas que eu fiz, inclusive com corte/colagem de trechos do livro e seminários que me ajudaram muito no preenchimento, para dar uma ideia do trabalho proposto pela Byron Katie. Tem me ajudado demais com meus filhos, aliás em todos os meus relacionamentos.

Formulário Julgue-seu-Próximo
Julgue seu próximo • Escreva • Faça as quatro perguntas • Inverta
Primeiro pense em uma situação estressante e recorrente, ainda que possa ter acontecido uma só vez e se repita apenas em sua mente. Antes de responder a cada uma das perguntas abaixo, permita a você mesmo revisitar mentalmente o tempo e lugar desta ocorrência estressante. Os exemplos são da própria Byron Katie realizando o trabalho sobre o marido dela, e em itálico está o que eu escrevi sobre os meus filhos. Em cinza, eu botei trechos adaptados de falas da Byron Katie.
Depois submeta às quatro perguntas
Exemplo: Paulo não me ouve sobre sua saúde.
1. Isso é verdade? (Sim ou não. Se não, vá para a 3)
2. Você pode saber com absoluta certeza que isso é verdade? (Sim ou não)
3. Como você reage, o que acontece, quando você acredita neste pensamento?
4. Quem você seria sem este pensamento?

Então inverta o pensamento
a) Para mim mesmo. (Eu não me ouço sobre minha saúde.)
b) Para o outro. (Eu não ouço o Paulo sobre sua saúde.)
c) Para o oposto. (Paulo me ouve sobre sua saúde.)
Então, encontre pelo menos três exemplos genuínos e específicos, de como cada inversão é verdadeira para você nesta situação. Se as inversões acima não funcionarem, tente inversões que você sinta verdadeiras pra você.

Inversão para a afirmação 6:
Estou disposto a (Exemplo: Estou disposto a que Paulo minta para mim novamente.)
Não vejo a hora (Exemplo: Não vejo a hora que Paulo minta para mim novamente.)
Para mais informações sobre como fazer O Trabalho, visite thework.com/portugues

Sobre mentir

Outro, problema em educação diz respeito aos limites de nosso papel quando queremos tornar uma criança pretensamente sincera e franca: "Nunca se deve mentir." Se exigirmos de uma criança que ela não minta, ela tem de se tornar imbecil, porque uma criança inteligente não é capaz de não mentir. Uma pessoa só pode se tornar sincera se tomar distância em relação ao que fez e que não é conforme ao ideal que tem de si mesma. Se confessamos um ato idiota que acabamos de cometer, somos duas vezes idiotas. Nada é mais perverso do que perguntar a uma criança: - 'Diga a verdade, que eu não vou zangar'.
Mas podemos lhe dizer:
- 'Conte como aconteceu! O que você queria. E o que conseguiu?
– Bom, eu queria fazer tal coisa, e o resultado é que eu quebrei isso, rasguei aquilo ...
– É, talvez tenha sido de fato preferivel ter corrido esse risco do que não ter feito nada, mas, está vendo, voce tem de aprender a fazer melhor certas coisas!'.
Em compensação, o que quer dizer: 'Diga a verdade, não vou zangar?', senão que: 'Quero ter poder sobre você, não permito que você viva fora da minha vigilância?'.

Se estudarmos nossos comportamentos educativos, a metade deles, com certeza, é perversa, a tal ponto queremos ter um poder ilimitado sobre nossas crianças. Como responsáveis (pais / educadores), é sobretudo o poder do exemplo que devemos desenvolver, não para impedir a criança de ter suas experiencias, mas para instrumentá-la nestas e lhe proporcionar os meios de realizá-las, em vez de proibí-las.

Como educador, trata-se de intervir em relação a atos reais na sociedade, referindo-se ao código de valores dessa sociedade, ao código desse grupo a que a criança pertence, e não porque é certo ou errado. A criança vai dizer: "tá certo" ou "tá errado", mas devemos estimulá-la a refletir sobre o porquê, em vez de obrigá-la a admitir valores já prontos:
- 'Por que você diz que está errado?
- Porque está errado, não está?
- Pode ser, mas por que? ... porque, se todos os do grupo fizessem o que voce acaba de fazer, seria perigoso para todo o mundo. Se você puder fazer isso assumindo, mas só voce, o risco, faça, mas não no grupo, porque no grupo é proibido.'

 Acostuma-se, assim, a criança a contar com os outros. É esse o papel do educador. Mas ele não deve acostumar a criança a acreditar que está errado assumir riscos que os outros não poderiam assumir, se ela se sentir capaz. No entanto, ela tem de agir por si mesma, não para se exibir diante dos outros. Porque, enquanto faz parte do grupo, está submetida aos limites dados pelo educador, guardião do regulamento: 'Eu, que sou responsável por voces e que sou pago para ser, não vou permitir voces irem além deste limite'.

Leia mais em "Destinos de crianças" por Françoise Dolto.

As perversões do dia das mães

“(...) Recentemente, li que as crianças deviam gratidão a seus pais. Claro que não! Os pais é que devem reconhecimento aos filhos por estes lhes terem dado a possibilidade de, graças a eles, não morrerem completamente. Os filhos não lhes devem nada. Tornando-se pais por sua vez, darão à sua descendência o que receberam; transmitirão o recebido como herança, de saldo positivo ou negativo (…) É comum ouvirmos dizer: 'faça isso para me agradar!”. Não há nada mais perverso do que esse pedido da mãe. A criança não pode querer outra coisa do que agradar, quando ela é pequena, antes dos quatro ou cinco anos, mas se a mãe faz disso um meio educativo, é uma perversão. Ela deveria dizer: 'o que me agrada é que você se desenvolva bem, que tenha seus amiguinhos, que siga seu caminho na vida, que faça o que deve fazer' 

(…) Dizer: "Você deve agradar a seus pais" é outra afirmação perversa. Assim, no dia das mães, quantas beberagens perversas as professoras fazem essas pobres crianças engolir às colherinhas, por acharem que devem agradar a mãe delas, quando o que devem é honrá-las, o que às vezes é o contrário! Honrar os pais é muitas vezes desobedecer-lhes. Um filho que obedece às exortações angustiadas de uma mãe ama-a, mas a desonra. Se agrada a ela não assumindo riscos, trai a vida que o leva a se tornar autônomo, e responsável por si mesmo, e que implica assumir riscos, o primeiro dos quais é desobedecer a uma mãe que perverte por angústia.

É essencial para nós refletir a esse respeito, quando somos os educadores dos filhos dessas pessoas neuróticas que certos pais são. Não ha mal nenhum em serem neuróticos, mas não é fácil para o filho. Portanto podemos ajudar muito este filho mostrando os motivos pelos quais sua mãe ou seu pai são ansiosos e o fato de que seu papel de ser humano, segundo a lei que vale para todos, em particular para os filhos de sua idade, é superar as angústias dos pais assumindo os riscos que tem de correr, assumindo sua própria vida e seu desejo de honrar os seus corn seu exito, mesmo se for por um caminho que seus pais desaprovam. Este deve ser o eixo dos riscos que assume. É muito importante (...)” 

Leia mais em "Destinos de crianças" por Françoise Dolto

Quando tocam no corpo da criança (cirurgias)

Então, o mais importante, pelo que eu entendi, é que mãe deve explicar para a criança, com palavras simples: o que acontecerá; o que o médico vai fazer; que é para ela ficar melhor, ficar boa! É bom também se o principal responsável pela criança (mãe / avó / tia etc) pudesse deixar com ela o tempo todo um casaco/lenço/camisa que tenha o seu cheiro, pois, a criança necessita desse contato constante com alguma coisa do responsável, como o cheiro, a voz, a respiração.

Eu passei no scanner um trecho do livro da F. Dolto e colei abaixo, achei que poderia interessar também.

"(...) Quando tocam no corpo da criança (Cirurgias)

Tenho aqui cartas que falam de crianças que vão passar por uma pequena cirurgia, ou serão hospitalizadas por algum motivo bem mais sério. Uma menininha de dois anos e meio, filha única, sera hospitalizada em breve para ser submetida a uma cirurgia de coração aberto. Isso exigirá uma hospitalizção de dois meses, alguns digs de UTI, portanto, com visitas muito limitadas. Por outro lado, os pais dizem que a filha fica com uma cuidadeira meio periodo, que se sente muito bem com ela, gosta muito do contato com outras crianças, mas, já está acostumada com o hospital, onde esteve várias vezes para consultas. Perguntam como preparar sua filhinha tão pequena para esse acontecimento.

O mais. importante é os pais não ficarem ansiosos. Esse tipo de cirurgia é comum agora e não é perigosa, portanto, a única coisa que pode interferir é o aspecto "psicológico". Quando se é obrigado a fazer essa cirurgia é porque a crianqa, que já não vive tão mal, ficará muito melhor depois. É sobretudo nisso que se deve pensar. Uma cirurgia é sempre algo penoso, mas sua finalidade é a cura dos distúrbios que a criança apresenta atualmente e que podem se agravar se ela não for operada imediatamente. Como ajudá-la? Em primeiro Lugar, não é certo que seja impossível a mãe ficar mais freqiientemente junto da cama da filha; ela deve converser sobre isso com a chefe das enfermeiras, pedir-lhe pemissão para fazer companhia a filha (…) pode preparar de antemão bonecas para a filha: deve comprar quatro; vestirá duas, uma de enfermeira e a outra de medico, e as dará a filha no hospital. Como não se pode tirar do hospital os brinquedos que se tem ali, então, a mãe deverá preparar as mesmas roupas para as duas bonecas que ficarão em casa e que a criança encontrará ao retornar. Desse forma, ela facilitará a passagem entre o hospital e a casa, porque é justamente isso que é diffcil: a volta do hospital, ao contrário do que a mãe pensa. A criança viverá no hospital durante dois meses; é muito tempo, dois meses nessa idade são quase oito meses ou um ano para nós. A criança precisa encontrar em casa os mesmos objetos que lhe serviram de companheiros enquanto estava lá (...)”.


Leia mais em "Destinos das crianças" por Françoise Dolto.

A loucura das festas no jardim de infância

Os pais e os professores já pensaram sobre a dimensão adquirida pelas festal de fim de ano? E surpreendente que, quase sem distinção, escolas públicas ou privadas, escolas que trabalham com populações ricas ou de poucos recursos, com excelentes propostas pedagogicas, e outras, se assemelhem tanto no desespero de mostrar aos pais aquilo que as professores são capazes de fazer com seus tesourinhos. Devemos refletir, também, sobre o fato de que chegar ao final do ano implica a representação teatral de alguma coisa, e quase sempre usando fantasias que as criangas menores invariavelmente resolvem descartar segundos antes de subir no palco. As professoras conseguem, com esmero e encanto, atravessar o evento com nervos de aço, uma vez que dão sua vida pelo brilho de cada pequeno. Terminar o ano pressupõe para as docentes entregar uniformes, preparar pastas, conceder entrevistas, além de ensaiar, fazer acertos com costureiras e adicionar um sem-número de horas extras de trabalho à sua folha de serviços para que o espetáculo das crianças atenda às expectativas dos pais e esteja à altura do prestígio da instituição. E as crianças, o que acontece com elas? Algumas desfrutam muitíssimo. Outras, passam por um estresse inimaginável para os adultos. Outras urinam nas calqas. Outras ainda choram no pior momento. Outras ficam duras no palco, aterrorizadas pelas luzes e mortas de calor sob a roupa de arvorezinha. Algumas se negam categoricamente a subir no palco, entre as explicações amáveis das professoras e o pedido suplicante da mãe, que prefere não decepcionar o pai, que espera com a filmadora ligada. Ha crianças que passam uma semana com dor de barriga. Ha quem se desespere quando cai ou deixa cair uma pétala de papel crepom. Algumas esquecem a musicas. Algumas se destacam por suas aptidões histriônicas, e são muito aplaudidas ... Enfim, os flashes se superpõern e todos querem voltar para casa, torcendo como loucos para que o pesadelo acabe. Prefiro minimizar a gravidade desses fatos, uma vez que estas encenações fazem parte da "normalidade". No final das contas, não é tão terrível assim atuar no fim do ano; todos o fazem em todas as escolas. Por que haveria de se modificar algo? A proposta é admitir a elaboração de pensamentos autônomos. Os adultos devem pensar em como gostariam de festejar o ponto máximo de um processo que compartilharam dentro de uma instituição. O que significa chegar ao fim do ano? O que — quern —estão festejando? Em princípio, qualquer situação que não queira transformar as crianças em objeto de consumo destinado a satisfazer a vaidade dos adultos é bem-vinda. Por que não organizar um churrasco, fazer uma quermesse com a participação de todos, contar historias, dançar cirandas, ensinar canções, paia e filhos pintarem juntos, jogar bola, brincar com água, trocar experiências, fazer um piquenique? Por que os pais não oferecem um espetáculo às crianças, se fantasiando e fazendo uma surpresa? Os adultos podem decidir se querem expor ou não seu corpo ou habilidades expressivas. Falo da submissão, disfarçada pela alegria e aplausos, impostos a muitas criancinhas. Envolvidos pela ferocidade do festejo, os adultos não se dão conta de que essa não é a forma de brilhar que etas necessariamente preferem. A liberdade de pensamento consiste em admitir que se pense ou se sinta algo diferente daquilo que a maioria definiu como bom ou desejável. Por isso, as megafestas dos jardins de infância são "normais" de forma indiscutível. As crianças menos ouvidas por suas famílias, menos levadas em consideração em sua condição de crianças, são mais vulneráveis na hora de aceitar uma maior exposição pessoal. As vezes, as professoras se deixam fascinar pela facilidade com que algumas crianças se dispõem a representar. Sem ignorar que ha criancinhas com dons e inquietações teatrais fora do comum, pode-se dizer que a maioria fez um imenso esforço para atender às expectativas dos mais velhos. E sem beneffcios pessoais de nenhuma indole, salvo o de se desnudar diante de uma imensidão de olhos alheios. Crianças estressadas existem e fazem parte de nosso meio. Não sofrem apenas as que tem muitas atividades fora de casa (curso de inglês, curso de dança, curso de natação etc), mas também as que se superadaptam As exigencias desnecessárias de uma sociedade que não distingue mais entre uma festa infantil e uma festa para o consumo dos adultos. Pensando em uma conexão emocional maior, podemos imaginar as festas como espaços ideais para o contato humano, pelo qual todos estão ávidos e carentes. Podem ser a ocasião para se conhecer, para corroborar o significado verdadeiro da escolha que fizemos para nossos filhos. Podemos pensar nas festas de fim de ano como um ritual, como um momento sagrado, do qual adultos e crianças merecem participar. Sao também a ocasião para observar nossos filhos sem julgá-los e repensar o que na realidade estamos escolhendo para eles. LEIA MAIS EM "A MATERNIDADE" DE LAURA GUTMAN

O desejo de autonomia

Dolto aborda uma das fases do desenvolvimento libidinal, o estágio anal, quando a criança, por volta dos dois anos e meio, começa a perceber seu autodomínio muscular. É um período em que a criança fala muito, grita, corre, salta, deseja fazer tudo sozinha e evita ser ajudada pelo adulto. No entanto, esse desejo de autonomia não é contínuo, mas intercalado por momentos de passividade e de pedidos de ajuda ao adulto. E muitas vezes o adulto, que não está atento a este processo descontínuo, entende o pedido de ajuda como um capricho. Avaliando a criança a partir de sua lógica, pronuncia palavras com ironia que ferem a sensibilidade da criança: "Para que você quer agora minha ajuda? Você não disse outro dia que já é grande e sabe fazer tudo sozinho(a)?" A criança, que nessa faixa etária não tem noção precisa de tempo - mal sabe distinguir ontem de hoje, e muito menos o que é (ou foi) outro dia -, entende que seu pedido (e sua vontade de autonomia) desgostou o adulto provedor, aquele a quem ela procura agradar a qualquer custo, mesmo que de uma forma incompreensível para a lógica desse mesmo adulto.
Leia mais em "Etapas decisivas da infância" de Françoise Dolto.